sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Xixi na cama

Quando eu era criança tive um grande pesadelo. Nele eu caminhava da casa da minha avó até minha casa sozinho que ficava a dois quarteirões dali. Era um final de tarde. Chegando em casa não havia ninguém e voltando para a a minha avó, percebo que também não havia ninguém lá. Eu estava muito apertado para fazer xixi e lembrei que no quarteirão entre a casa dos meus pais e a casa da minha avó havia um bar. No bar tinha um banheiro que ficava sempre aberto para os bêbados que ficavam na rua. Andei apressadamente com os joelhos batendo um no outro. O sol estava se pondo e a cada passo que eu dava parecia ser meia hora no tempo. A rua estava silenciosa. escutava os meus passos, meu coração e as pedras que eu chutava sem querer na pressa de chegar ao bar. Cheguei no bar pela madrugada. Bar esse que ficava a uns cinquenta metros da casa da minha avó. A noite não estava escura. O céu estava vermelho sangue. Estranhei, mas era muito jovem num planeta estranho onde acontecem coisas estranhas o tempo todo. Abri a porta devagar e ela rangia em um tom mais grave. Porta pesada, dobradiça antiga, sem maçaneta. Cheiro de xixi de bêbado. Está no banheiro me tranquilizou. Não gostava do céu que parecia me olhar com olhos macabros. Abaixo o calção até um pouco acima da coxa onde cobria metade da minha bunda e minha piroquinha ficava exposta o suficiente para não me mijar. Levanto a a tampa do vaso. Surge de dentro do vaso como se saísse de um buraco negro um tubarão branco. Vejo os detalhes dos dentes e restos de comida entre eles. Grito e acordo. Na cama uma poça enorme de algo que me parecia ser xixi. Tive que passar o resto da noite fria na outra metade do colchão.

Sombra de cajueiro

Debaixo do cajueiro
brinca criança
dorme cavalo
pousa passarinho

Areia amarela
sol quente
folhas secas

No meio daquela praça
o caju espera
as pessoas passam
o sol se põe
e o vento continua.