quinta-feira, 20 de maio de 2021

Passado areia


Posso dizer por mim que vejo o tempo passar, o passado já foi, mas deixa marcas.
Onde o passado se encontra?
Posso ver o passado na minha pele, recordações de cicatrizes que agora são somente memórias.
Não escuto muito sobre o passado dos meus pais, nem dos pais dos meus pais, nem dos avôs dos meus pais.
Mesmo assim sinto que carrego comigo cicatrizes de um passado que me foi herdado, vindo de um outro continente.

Olho em minha volta e posso ver as cicatrizes nas paredes, posso ver histórias, posso sentir o movimento da terra, o crescimento das plantas e um passado que não me pertenceu, mas que existiu e não é falado nas escolas.
Um passado no meio de vários outros.
Um passado ao lado de vários outros.
Um passado e vários outros.

Barrinha de baixo é uma comunidade que fica em Acaraú, Ceará
Lá existe histórias que estão se perdendo aos poucos, um passado que ainda existe, não na cabeça, não nos corpos ou na fala, mas na terra. Registro do movimento, da passagem de pessoas, dos relacionamentos. Passado esse coberto pelo presente de forças humanas e naturais, mas que ainda deixa cicatrizes.

A força do vento, a luz do sol, o som do mar, a água da chuva, a inquietude humana e as ruínas.




















Esse sentimento nunca escolhi ter, mostrou sua face ainda quando era criança



Eu tenho medo

Infelizmente eu tenho medo

Nasci num tempo onde humanos matam humanos por poder, mas não somente humanos

Medo instaurado, enraizado por gerações, medo que se revolta

Medo de mergulhar no mar nas noites de lua nova e me perder num espaço infinito, passando toda a eternidade sem poder ver ninguém, pensando de tudo a todo momento

Será assim a energia consciente após a morte física?

Me dá medo torcer o tornozelo quando ando pelo meio fio, mas não tenho medo de deslizar de skate no asfalto

Tenho medo de me arranhar

Tenho medo de uma ditadura, das pessoas em minha volta, da polícia e de mim

Tive medo inúmeras vezes de nunca mais poder ver quem amo de novo

Tenho medo de perder a Aquaria

Tenho medo do que pode acontecer com meus pais

Medo de pensar que não viverei para sempre

Não tenho medo da morte

Tenho medo de não poder amar mais quem me ama

Tenho medo de que alguma agência espacial encontre um planeta habitável para humanos

Medo de que no futuro as novas gerações não possam ver as estrelas

Medo de dormir com a porta aberta

Já tive medo de não conseguir voltar mais a respirar direito depois de tanto rir

Reconhecendo esse sentimento

Pulei da ponte metálica

Abracei um desconhecido

Dancei na praia

Cantei alto no ônibus

Comi várias comidas estranhas

E

Ri do medo




Guitarra en la cocina



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