sexta-feira, 24 de abril de 2020

Eu, José, Iara e o Infinito




Eu fiquei pensando por um bom tempo em como posso saber onde inicia minha história.
Para mim foi do mar
 Essa água metafórica
De movimento harmônico com os corpos celestes

Pude pela primeira vez só, sair de casa
Corri até minhas pernas tremerem
Enquanto corria 
Sorria

Cheguei na praia, tirei meus chinelos, corri até chegar no mar
Pisei na areia, meus pés afundaram, sentia muitas pedrinhas nos meus pés
lisa, enrugada, caraquenta, pontudas, arredondadas, grande e pequenas
Uma onda chegou, molhou meus pés
Papocavam bolhas de água nos meus pés
Um som semelhante a de um peixe sendo torrado numa caçarola com óleo bem quente
Ela escorre e sinto o movimento dela passando entre todos o meus pelos da perna

Salto
Mergulho
Abro os olhos
Não vejo nada, é silencioso
Sinto a vida

Alí

Naquele infinito mar que esbarra no céu
Me dá medo por não saber quem ou o que está perto de mim
Se é grande ou pequeno, se vai tentar me morder ou não
Numa posição semelhante a essas imagens de fetos humanos com 9 meses
Sinto as ondas e os movimentos
Tive medo, tive amor, tive desconfiança. tive coragem, tive confiança

Um onda grande

Girei

Nadei pensando que a qualquer momento me chocaria com a superfície de cima ou de baixo
E nunca pensei no que aconteceria comigo se eu nadasse para os lados
é como o infinito
Não sei dizer se estou nadando rápido ou lento
Se saí do lugar ou não
Não sentia meu corpo
Levitei até me chocar na superfície de cima
Senti tudo aquilo por um minuto e vinte e três segundos

Olhei para o céu e ele não era mais o mesmo que antes do mergulho
Era uma noite estrelada
A lua cheia iria surgir do meio da escuradão entre o mar e o céu.





Saí do mar com a roupa ensopada, cabelos nos olhos, lábios salgados
Sentei na areia ao lado do José que olhava o mar com olhos fixos
Já sabia o que iria fazer assim que a lua resolvesse aparecer
Nesse momento sentia que cada ponto luminoso no céu me observava
José e eu ficamos calados o dia todo, foi uma escolha difícil
Ele só queria observar o mar mais uma vez

O mar sobe e a lua também
Tiro os troncos de carnaúba de baixo da Iara
José solta a vela
Empurramos com toda força
Logo estamos em alto mar
Na minha sacola

- Um caderno;
- Um lápis;
- Um canivete;
- Uma lanterna;
- Algumas conchas;
- Uma gaita;
- Uma foto da praia.

Sempre que vamos pescar José leva uma laranja
Na bolsa dele deve ter uma laranja
O que ele poderia levar mais?
Eu não sei.




O vento nos empurrou com tamanha força que levantamos voo
Subimos alto em direção a lua
Sabíamos que em questão de minutos estaríamos passando por ela
Tivemos alguns problemas com os ventos do norte
Mas a Dona Livia que mora na esquina da praia já fez uma viagem alta assim e nos alertou
E quando tudo estava mais calmo, saindo da atmosfera
Quer laranja?
José falou
Quero
Eu disse




Depois que passamos da lua, pegamos uma corrente de luz muito forte
Numa velocidade inexplicável saímos pra procurar luz num universo escuro.

Deitados na areia da praia, olhando as estrelas, eu e o José pensamos em conhecer outros planetas.
Ele falou que sonhava com isso sempre que jogava a rede no mar
Eu falei que sonhava com isso desde que pisei na areia da praia a primeira vez.





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