Parte I
Peguei a topic 13. Saí do Benfica. Sentei no lado da janela e fiquei olhando meu reflexo no vidro, ao fundo desfocado, ruas, árvores, muros coloridos, muros monocromáticos, asfalto, faixa branca, faixa amarela, outros carros, motos, ciclistas, o barulho da tampa de esgoto que se repete sempre que um carro passa. Todos passam na mesma velocidade por ter foto sensor, do contrário o ritmos dos sons da tampa de esgoto séria diferente. Já parei pra olhar uma tampa de esgoto numa rua sem sinal ou foto sensor, eram sons lindos. Em volta os sons das árvores, sempre verde, eucalipto, palmeira real, pé de tamarindo, mangueira.
O vento.
- Corta! Show galera, deu muito certo. Enquadramento ta ok? Ei e o som, saiu massa?
- Ta massa, deu certo sim. Teve um pássaro que cantou mesmo na hora das árvores que deu muito sentido pra cena.
- Pois galera, deu certo, vamos descer na próxima parada, fazer um lanche e falar um pouco sobre a cena de hoje beleza?
- Sim, tranquilo, ainda bem que deu certo agora, ja tava com fome.
Sorri, sorri de um jeito estranho, tipo como se eu quisesse ser amigo sem querer. Ele é uma pessoa legal, mas não tenho vontade de ter ele como amigo, estou bem com os meus. Mas por outro lado talvez ele me chame pra fazer mais filmes, acho que nos damos bem, talvez minha personalidade se enquadrou bem com a personalidade do personagem. Foi fácil ser eu mesmo. Mas eu sou assim? Como sou então?
Minha mãe, quando eu era criança, me dizia para ser arquiteto, engenheiro, advogado ou médico, as outras coisas não prestavam, era tempo perdido. Não conheci meu pai, mas acho que não me interessa muito conhecer. Não digo isso para outras pessoas que não tem pai. Antes não sabia porque, hoje só os vejo como homens que vive numa sociedade muito errada e que se aproveita dos privilégios do gênero. Enfim, fiz teatro, tive um irmão no meio desse processo e agora minha mãe diz pra ele ser advogado. Moro numa casa...
Espera, é necessário que eu diga tudo?
Cena 5 - Dia - Praia
Davi dança na areia fina, seca e clara (pensar num nome para o personagem onde a mãe seja como a mãe do personagem). Areia da praia, por do sol, água brilhante, mar calma, sons lentos das ondas, vento constante de baixa velocidade. Fade in. Davi está sentado na areia, canto inferior direito, pessoas passam, praia dos crush, ele olha pro mar, mas o enquadramento é ele de costas pra gente. De repente ele se levanta, solta suas coisas na areia e dança ao ritmo das ondas. Som ao experimental. Chama o Johnathas pra fazer esse som contigo viu Rafael?
- Beleza, tranquilo. To com umas viage em mente aqui que vai da bom.
- Massa, pode crê, boto fé.
Parte II
Corri até não aguentar mais.
Ofegante, tentava olhar pra trás e ver o que tinha acontecido aos outros. Tenho vontade de voltar e chegar na vuadora e derrubar pelo menos um. Se eu for preso por ta um beck minha mãe me mata. Ia ficar passando na minha cara que sou negro, que a polícia vai me matar, se me pegarem, ainda mais com droga, diria ela. Vou aguardar mais um pouco.
- Ei Davi, porra má, o RAIO quase me pega man. Tava só com uma bia no bolso.
- Macho eu vi de longe e ja peguei logo o beco, quando começaram a vir pra cima com os cavalo, eu ja tava era na calçada.
- Ta dando pra fumar mais aqui não véi, fumar la na praça da rua mesmo.
- Pior que lá é perto da delegacia.
- Ha mas lá a policia de lá num faz nada, os otro é que embaça, mas nada pior que aqui. Cadê que foram na direção daquela gringaida que tavam fumando ali também?
- Ja falei pra gente chegar com pal e pedra num movimento geral de negros.
- Porra mano, to pra fazer um molotovizim só pra eles vê o que é bom, pior que aqui vejo nego em todo canto, se fosse meno branco eu nem pensava.
- Ei, bora voltar lá e ver se não deu problema pra ninguém lá.
- Bora bora, de leves.
- Beleza, qualquer coisa a gente corre pra água.
- Ta chei de rosa hoje na praia, cuidado pra tu num achar que é outra coisa kkkk.
Parte III
Numa roda de conversa entre amigos, escuto no meu pensamento uma ideia, poderia eu escrever a história do Rafael? Um menino que faz teatro na UFC, a decisão de escolher o curso de teatro foi muito difícil por causa do que sua mãe queria, só tinha a mãe, o pai os deixou quando soube que ia ser pai. Teve um irmão depois, sua mãe se casou com outro cara do qual o Davi e ele não se davam bem e nem se falavam. Davi não era de falar muito, mais observador. Ao entrar no curso de teatro foi mudando um pouco isso e brincando de ser personagens na rua, no ônibus, na vida. Negro, morador de periferia, dificuldades de transporte público para acessar locais mais centrais. Tem amigos que estudam cinema e juntos tem um coletivo de produção audiovisual voltado para um produto que possa se comunicar através da interdisciplinaridade das linguagens.
Morava com a mãe, agora divide uma casa com um amigo.
Fim
(Parte 3 poderia ser o protagonista imaginando como se fosse ele criando uma historia ja criada que era a vida do amigo.)
Parte III
Numa roda de conversa entre amigos, escuto no meu pensamento uma ideia, poderia eu escrever a história do Rafael? Poeta? Já o vi escrever muitas vezes. Acho que tenho até aqui no celular algo que ele escreveu.
Poesia rima
Rima minha visão
Tu só de calcinha
Eu de samba canção
Teu beijo por cima
Nós dois no chão
Que merda é essa, a quem quero enganar? Poxa, não consigo escrever coisas boas.
Amassa joga dentro da mochila e pensa, será mesmo que tava ruim?
Claro que tava. Mas e se alguém gosta?
Essa pessoa deve ter mais problemas que eu.
Estou buscando me reconhecer. De repente percebi que muitas das minhas ações atuais me definem e elas devem ter vindo de algum lugar. Percebi que fiz questão de apagar memorias do meu passado pra me livrar da pessoa que eu achava horrível a cada dia que passava e tinha noção das minhas ações. Fui e ainda sou uma pessoa estúpida que acredita estar aprendendo a toda hora e que o passado não é nada mais do experiência. Acessar essas memórias que queria esquecer esclarece essas ações idiotas atuais. Hoje percebo meus traumas, como reverter isso? Fui abusado quando criança, fiz bullying, fui rascista e homofóbico.
(Personagem chora muito e fica com a sensação de estar sem chão).
Olha pra mim hoje, não consigo dizer aos meus pais sobre meu namorado, moro numa casa arriscada a cair, devia ser médico, arquiteto ou engenheiro como minha mãe queria, não sou e acho que não vou ser.
Como cheguei até aqui?
Você que lê, está lendo e se fazendo essa pergunta?
Imagine agora você escrevendo.
O que escreveria?
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