Corro não por pressa, mas por vontade de viver.
Com olhos que ainda brilhavam ao ver as cores do mundo.
Mãos que ainda descobriam o que acontecia ao triscar os olhos do caracol.
Não entendia muitas coisas.
Como o avião voava? Somos só nós aqui desse planeta? Como eu consigo escutar?
O que acontece se eu beber água de cabeça para baixo?
Se eu misturar amarelo e vermelho o que que dá?
Laranja, gosto de laranja.
Quando eu crescer quero ter um pé de laranja em casa.
Menino vem cá, não quero neguim brincando com meu filho não, quer brincar com o carro de controle remoto vá pedir a sua mãe pra compra um pra você.
Meu tio outro dia disse que quem mentia ficava preto, como também já disse que não era pra beber tanto café pra não ficar preto.
Parecia que ser preto era algo ruim.
Gosto da cor preta.
Azul, laranja, roxo, verde.
Prismas ao sol.
Lentes concavas e convexas.
Há tantas estrelas cadentes no céu, basta abrir bem os olhos, ter paciência e desfrutar da nossa quarta dimensão.
Tempo.
O tempo da minha mãe que pegava ônibus lotado.
No seu braço um novo ponto roxo.
O roxo que me trazia tristeza.
E sentia que ela preferia chegar com meu braço roxo do que ficar mais tempo sem ver seus filhos.
Minha mãe usa muitas roupas legais.
Minha irmã tem um cabelo lindo.
Meu pai é um homem paciente.
Quando eu crescer quero tem um cabelo igual o da minha irmã.
E nele várias cores.
No dia que senti os meus cabelos nos meus olhos pela primeira vez, estava correndo, esqueci de pegar o pen drive na lan house.
Uma mulher me viu correr e agarra a filha dela.
Seus olhos pareciam que iam me devorar.
Com uma velocidade de um colibri e com a força de uma onça.
Seus olhos pareciam que iam me devorar.
Com uma velocidade de um colibri e com a força de uma onça.
Ela me olha e eu olho para ela.
Olho pra criança e ela me olha sem entender o que estava acontecendo.
Sorrio.
Ela se vira.
Sua cara era de pavor e ódio.
Era em frente ao iguatemi.
Olhei minhas roupas, lembrei das noticias do meio dia da TV.
Lembrei da cor dos homens que são parados pela polícia na rua.
Lembrei das frases do meu tio.
Lembrei da minha pele.
Pedi desculpas.
Desisti da minha desculpa depois que sai de perto dela.
Queria voltar e mandar ela se-fu-der.
Na minha família, pouco se falava de politica, religião e sexualidade.
Todo mundo da família já sabe.
Todo mundo é cristão, heterossexual e vota no candidato que promete emprego, maior salário e saúde.
Nada de drogas, mas álcool pode.
Num pode, mas pode.
Não pode brincar de boneca, mas de arma... é vai.
Fui barrado na portaria de um espaço público.
Fui perseguido no supermercado.
Fui baculejado indo para o trabalho.
Pediram minha identidade.
A do meu amigo não.
De novo lembrei do meu tom de pele.
Ei neguim, abre as pertas e põe as mãos atrás da cabeça.
O que tu carrega na tua bolsa?
Só uma caneta de indignação, uma folha de raiva e uma gaita que canta: MI FA LA DO SOL.
Admiro mais ainda a cor preta.
Uma tela em branco me deixa motivado a pintar.
Saio de casa lembrando da cor da minha pele todo o tempo.
Não toca no meu cabelo.
Não achei essa piada engraçada.
Sou livre
Tenho o lindo prazer de ter uma vida.
Quero aproveitar bastante dela fazendo coisas que me façam sentir motivação de viver.
Lutar sempre por uma vida melhor.
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